segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Nas nuvens
Há bocadinho vi-te a espreitar atrás de uma nuvem. Sorrias, mas talvez não fosse para mim.
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domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Comer comida podre
Imagina uma pessoa que adora comer e que por razões médicas muito fortes se vê obrigada a comer todos os alimentos sem sal e sem quaisquer temperos. Não é com uma pessoa dessas que me deves comparar, pois a comida parece-lhe insípida e desinteressante mas não tem um sabor repugnante. Ora, a minha vida actual tem um sabor repugnante, um sabor a coisa podre e nojenta. Compara-me antes a alguém que ingeriu sem querer alimentos deteriorados e que ao sentir o seu sabor azedo e amargo sentiu vómitos. Imagina também - se queres ter uma ideia do que é a minha vida actual - que essa pessoa, devido a uma circunstância qualquer, foi obrigada a conter os vómitos e a engolir os sucos nojentos que lhe subiram à boca juntamente com os bocados de comida estragada que já trincara.
quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Bússola doente
Penso muito em ti. Dito só assim é um
eufemismo. Na verdade, estou sempre a pensar em ti. Sempre não quer dizer
cinquenta vezes por dia, mas sim todos os minutos. Várias vezes em cada minuto,
se o pensamento não for contínuo e não ocupar o minuto inteiro. Milhares de
vezes por dia, portanto. Penso em ti tal como uma bússola aponta para o Norte. Tal
como o ponteiro da bússola é atraído pelo magnetismo da Terra, os meus
pensamentos são atraídos pela tua pessoa.
Infelizmente, o que está certo para as bússolas
não está certo para os seres humanos. Pensar em ti tão obsessivamente impede
que me concentre de modo profundo e eficaz nos outros assuntos pessoais,
familiares e profissionais que tenho entre mãos. Pensar em ti tão obsessivamente,
aliado ao sofrimento provocado pelo facto de não gostares de mim e pelo facto
de teres sido indecente para comigo, está a prender-me, está a roubar-me a
liberdade e a estragar-me a vida.
Penso em ti e sofro desse modo porque gosto
de ti. Mas o amor não devia ser assim. O amor devia tornar-nos melhores e mais
fortes. O meu amor por ti é uma doença. Uma doença simultaneamente crónica e
aguda. Uma doença incurável e talvez mortal. O meu amor por ti é uma espécie de
cancro na alma.
domingo, 31 de Janeiro de 2010
I'm not cool!
"You are not cool", dizes-me tu todos os dias através do teu desprezo por mim. E tens razão. Não sou mesmo nada cool. Desculpa existir.
quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
O que diz o silêncio
Ouviste o meu silêncio e percebeste que eu estava a tentar comunicar contigo. Mas não quiseste responder. Tal como tinha sucedido muitas outras vezes, em que utilizei palavras.
O que tu nunca conseguiste perceber foi que podias confiar em mim, que não arriscavas nada se confiasses em mim. Podias ter-me confiado sem medo os teus defeitos, receios e fraquezas. Eu nunca te trairia nem me aproveitaria de ti. Mas também é verdade que eu nunca te consegui explicar isso, nunca consegui tornar isso uma evidência. Talvez não seja possível transmitir uma ideia dessas através da linguagem, mas apenas através daquilo que fazemos e somos. E, nesse caso, o facto de nunca teres percebido que podias confiar em mim e que te podias revelar e expor sem perigo diante de mim, demonstra apenas a minha falta de valor como pessoa. O meu silêncio era, então, uma última e desesperada tentativa de te mostrar que...
Imagem de Inês d'Orey, tirada daqui (onde há outras que vale a pena descobrir).
terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Viver com a morte
Há semanas julguei durante algumas horas que tinha poucos meses de vida e descobri depois que não era assim. Tinha sido um equívoco, uma troca de nomes. Como na altura escrevi, senti que alguma coisa tinha mudado em mim. Achei que tinha redescoberto uma força que perdera e que a partir daí, embora continuando a gostar de ti, conseguiria não me deixar dominar pelo sofrimento.
Pura ilusão. Continua tudo na mesma. Mal consigo trabalhar. Durmo pouquíssimo e é raro o dia em que não acordo de madrugada. Hoje, por exemplo, acordei por volta das cinco da manhã e tinha-me deitado às duas. Não é nada bom para a minha saúde, claro que não é, tal como o excesso de álcool e de café. Mas não consigo evitar: nem os comprimidos para dormir me fazem dormir a noite toda. E não, não é por causa do café: já fiz várias vezes a experiência de não beber café nenhum e não durmo à mesma. O que se passa é que, dormindo todos os dias tão pouco, preciso de beber café para conseguir funcionar: conduzir, trabalhar, fazer a minha parte de tarefas domésticas, ter presença de espírito para interagir com os meus filhos, etc. Quanto ao álcool… tenho até vergonha de falar disso. Não se trata de beber até cair, mas sim de beber em cada refeição dois ou três copos a mais do que seria normal. Não se trata de beber para esquecer, como se costuma dizer, pois eu não consigo de modo nenhum esquecer. Bebo demais porque me embrutece e me ajuda a ter um pouco de insensibilidade: para não rebentar de desespero, para não começar a chorar de repente, para não me ir abaixo ainda mais. Ajuda nessas coisas, mas claro que não ajuda a saúde. Nem a auto-estima. Nem a dignidade.
Ainda não são sete da manhã e vejo o dia que começa como um insuportável deserto que tenho de percorrer e onde a preocupação dominante será: conseguirei ver-te hoje? Conseguirei ver-te a entrar no carro ou a passar rapidamente pelo meu? Vou percorrer esse deserto mais uma vez, e amanhã também o farei, pois não me esqueço dos meus deveres profissionais e familiares (embora os vá cumprindo com cada vez menos qualidade). Sim, vou viver mais um dia e amanhã direi o mesmo. Mas viver assim é viver com a morte e não com a vida.
domingo, 24 de Janeiro de 2010
A Rua do Fim
Vou pela rua da direita ou pela
rua da esquerda? Talvez pela da direita, pois segundo o pouco que sei da tua
vida actual passas muitas vezes por essa parte da cidade. Ou talvez seja melhor
ir pela da esquerda, pois na semana passada vi-te lá uma vez mais ou menos a
esta hora. Pensando bem, e se ficasse um bocado neste lugar de onde se vêem
ambas as ruas? Assim, talvez a possibilidade de te ver aumente um bocadinho… Só
que… E se, enquanto eu estou aqui, tu passas lá adiante, na rua da direita? Claro
que, com o meu azar, se vou para lá tu passas é na da esquerda ou… ou… o que
sei eu? Se calhar não estás sequer na cidade.
Parece mentira, mas faço muitas
vezes esse género de especulações e não hesito diante do caminho mais longo se,
nesses momentos de delírio, parecer que conduz a um sítio onde talvez estejas
ou onde fugazmente passes. São os cálculos de um amor desesperado e triste. Estou
a tornar-me uma pessoa completamente patética e ridícula. Talvez o melhor fosse
eu desaparecer desta vida. Sim. Nem a rua da esquerda nem a rua da direita são
o melhor caminho para mim. A rua do fim é que é a minha rua.
Contudo, à entrada dessa rua
existe um sinal a indicar uma proibição total de trânsito. Em vez do círculo
branco do costume tem estampadas as caras dos meus filhos.
sábado, 23 de Janeiro de 2010
Einstein, o nosso barqueiro
Acordei a pensar em ti, depois de sonhar que descia contigo um rio. Íamos num barco conduzido (não me perguntes porquê) por Einstein - sem bigode, sorriso de orelha a orelha e chapéu de palha na cabeça.
Ainda falta mais de uma hora para o Sol nascer, mas sei que vou continuar a pensar em ti o dia inteiro. Contudo, descer contigo um rio, ou mesmo uma rua, é mais improvável de suceder que Einstein regressar dos mortos e se tornar barqueiro. Infelizmente.
Ainda falta mais de uma hora para o Sol nascer, mas sei que vou continuar a pensar em ti o dia inteiro. Contudo, descer contigo um rio, ou mesmo uma rua, é mais improvável de suceder que Einstein regressar dos mortos e se tornar barqueiro. Infelizmente.
Imagem encontrada aqui (vale a pena espreitar).
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Fotografia
sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Ofereço-te a luz do Sol
A previsão meteorológica para hoje fala de céu nublado. Em tempos, num dia assim, queixaste-te da falta de luz e do frio. Por isso, meu querido amor, ofereço-te a luz do Sol que conseguir atravessar a muralha de nuvens e chegar à nossa cinzenta cidadezinha. É também teu todo o calor que vier agarrado à luz.
Infelizmente, e tu sabes isso tão bem como eu, a luz e o calor do Sol aquecem o corpo e até podem fazer sorrir, mas não aquecem a alma, pois são impotentes perante o frio que vem de dentro. A ciência, a filosofia, a literatura, as artes e todas as outras coisas boas capazes de alimentar a mente de uma pessoa inteligente, não podem igualmente nada contra ele. O amor, que tu ainda não encontraste ou que perdeste muito antes de me conhecer, é a única defesa contra esse mal. Prepara-te pois, meu querido amor, para mais um dia sombrio e frio.
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Pus outra flor no teu carro
quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Déjà vu do desamor
Já
me sucedeu muitas vezes voltar a um sítio e perceber que estava a fazer
exactamente a mesma coisa do que há meses atrás quando lá tinha ido pela
última vez: pensar em ti.
Pensar
em ti a maior parte dos segundos de um minuto e a maior parte dos minutos de
uma hora. Pensar em ti sem saber de ti. Pensar em ti sem esperança de voltar
alguma vez a conversar contigo. Pensar em ti sem acreditar em ti. Pensar em ti
sem confiar em ti. Pensar em ti gostando de ti sabendo que não gostas de mim.
Pensar em ti sem pensar em mim.
Aconteceu-me
em restaurantes, cafés, supermercados, lojas disto e daquilo, farmácias, ruas,
monumentos... A última vez foi num cemitério. Num cemitério.
Não
tenho palavras para descrever o sofrimento e o desespero provocados por esta
situação em que me deixaste. Eu não mereço isto. Não por qualquer qualidade ou
valor que eu tenha, mas simplesmente porque ninguém merece viver num inferno
destes, por muitos defeitos que possa ter.
terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Falta de amor
Tão esguia a gata
Não da falta de cevada
mas do amor
Não da falta de cevada
mas do amor
Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, versão portuguesa de Jorge de Sousa Braga, Assírio e Alvim.
"O Gosto Solitário do Orvalho" e outros poemas de Matsuo Bashô podem ser encontrados online aqui.
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Pus outra flor no teu carro
Mesmo assim...
Ontem ao
fim da tarde vi-te finalmente outra vez. 4 ou 5 segundos não mais, e com os
vidros molhados dos nossos carros e 3 ou 4 metros de distância pelo meio. Não
chega para tirar a poeira dos meus olhos nem a palidez que ataca as coisas do mundo quando estás ausente. Mesmo
assim foi bom. Foi bom e eu precisaria recorrer a toda a minha força de vontade e
sentido do dever familiar e profissional para não atravessar agora a cidade caso
isso me permitisse repetir esses 4 ou 5 segundos.
segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
O nome do vento
Há vários dias que não te vejo. Uma semana ou talvez mais. Olho incessantemente na direcção dos lugares onde te costumava ver. Sem o teu aparecimento fugaz essas ruas parecem desertos, lugares vazios e sem interesse. Não te ver faz empalidecer as cores das coisas e torna baços e vagos os seus detalhes. Como se eu tivesse os olhos cobertos de poeira.
E é de facto poeira. É a poeira que se levanta da destruição que a tua ausência provoca na minha arruinada vida. O vento que a levanta não é o vento Norte nem o vento que se ergue do Sudoeste. O seu nome é tristeza.
domingo, 17 de Janeiro de 2010
Era teu, era teu
ESTE FRESCO JARDIM
Este fresco jardim era teu
Com suas terraças para o mundo.
Eram tuas as cores deste céu
E o pequeno pastor, ao fundo.
Com suas terraças para o mundo.
Eram tuas as cores deste céu
E o pequeno pastor, ao fundo.
Mário Cesariny de Vasconcelos, Pena Capital.
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terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Sol de Inverno
Estou numa esplanada ao pé de um rio. É um barzinho agradável, onde se pode beber um café quase tão bom como a paisagem. Na mesa ao lado alguém elogiou o “white coffee”e o vinho - francês, bom e relativamente barato. São quase cinco da tarde e resta-me pouco tempo. O sol de Inverno, depois de tantos dias de chuva, bate na cara tão tépido e abundante que apetece dizer “obrigado”. Estive alguns minutos de olhos fechados, ouvindo os ruídos da cidade e deixando esse calor luminoso arranhar-me as pálpebras e as bochechas. No preciso momento em que ouvi um gato miar ocorreu-me que se estivesses ali comigo teria que renunciar àquele prazer e manter os olhos abertos, pois não quereria perder nem por um segundo a oportunidade de olhar para ti. Mas renunciaria de bom grado ao prazer do sol, mesmo após tantos dias de chuva, pois o deleite de olhar os teus olhos e a tua pele excede em muitas medidas qualquer outro prazer.
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quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
Desmorrer
Fiz há dias alguns exames médicos. Ontem, já depois da meia-noite (por causa de uma cirurgia que se arrastou), o médico em pessoa, o importante Dr. Fulano de Tal, telefonou-me para me dar más notícias e para me pedir para fazer "muito, muito urgentemente" outros exames. Não vale a pena entrar em detalhes, pois uma das frases silenciou as outras todas: “Tem no máximo seis meses de vida.” Não consigo descrever o que senti e pensei ao ouvir isso. Pensei imediatamente em ti, pensei nos meus filhos - mas não é a altura para falar disso.
Não disse a ninguém cá em casa e não estaria a dizê-lo aqui se este fosse o meu verdadeiro nome.
Esta tarde, um pouco antes de ir fazer os tais exames urgentes, o Dr. Fulano de Tal telefonou-me outra vez. Estava atrapalhado e nervoso. Gaguejou e pediu três ou quatro vezes desculpa antes de dizer fosse o que fosse. Tinha havido “um lamentável engano” e “uma inexplicável confusão de nomes”. Afinal, não sou eu que tenho no máximo seis meses de vida. Não consigo descrever o que senti e pensei ao ouvir isso. Pensei em ti, pensei nos meus filhos - mas, mais uma vez, não é a altura para falar disso.
Eu, “se não quiser arranjar sarilhos graves” - disse ele muito sério -, tenho de me cuidar (dormir mais, cortar nos cafés e deixar de beber álcool), mas provavelmente viverei mais do que seis meses. “A não ser que morra com algum desgosto de amor”, acrescentou o irónico doutor, que nunca ouviu falar de ti.
Durante horas convenci-me de que iria morrer em breve. Não preguei olho a noite inteira e durante horas mergulhei no buraco escuro da solidão - eu e a minha morte. Depois, tão abrupta como a primeira, chegou a notícia de que afinal a vida me irá continuar a pertencer. Não consigo descrever o que senti e pensei, mas sei que alguma coisa mudou.
quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
A doçura da tua pressa
Quando tinhas o mesmo emprego que eu, houve uma época em que, num determinado dia da semana, conseguíamos estar a trabalhar juntos na mesma sala durante cerca de uma hora. Por sorte, nessa altura havia poucos colegas nas redondezas. Se por vezes entrava um deles, perguntando por um impresso ou por uma pessoa qualquer, continuávamos a nossa conversa sobre livros, filmes and so on, ou fingíamos que era essa a conversa se nesse instante conversávamos sobre algo mais íntimo. Mais difíceis de disfarçar eram os olhares, lembras-te?
Houve um dia em que consegui chegar três ou quatro minutos antes da hora e vi-te a sair dessa sala em passo rápido. Ias à casa de banho e a pressa devia-se ao facto de quereres estar de volta antes da minha chegada, pois não querias desperdiçar nenhum minuto daquela hora comigo. Tu não me viste, imóvel no corredor a ver-te descer as escadas. Nunca calhou contar-te esse episódio, mas recordo-o como um dos melhores momentos da minha vida. E o melhor dessa recordação não é a imagem do teu lindo rabo bamboleando-se escadas abaixo, mas sim a tua pressa.
Tirando os meus filhos, não há no universo inteiro nada mais doce que a tua pressa naquele dia. Infelizmente trata-se de um dia preso no passado.
O fim da história
A nossa “história” já devia ter terminado. A melhor altura teria sido um dos momentos em que atingiste o ponto de saturação que te levou a afastar de mim. Em vez de te afastares progressivamente sem assumir que estavas a fazê-lo e algum tempo depois cortares completamente recorrendo a um pretexto que te permitia dizer que a culpa era minha, tinhas falado comigo, tinhas reconhecido que não gostavas de mim e depois cada um de nós ia à sua vida. Para mim seria doloroso, mas menos que esta situação, pois seria uma coisa clara e limpa. Se me respeitasses é o que terias feito.
Não o fizeste e agora, que isto já se repetiu cinco ou seis vezes, estou a atingir o ponto de ruptura. Eu esforço-me, sabes? Não alimento o desespero e tento viver decentemente e cumprir os meus compromissos. Tento todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Mas – percebes o problema? - preciso de tentar todos os minutos, preciso de estar sempre a tentar, pois nunca consigo. Não consigo. O desespero está a ganhar. Vejo todos os dias reflexos disso na minha vida conjugal, nas atitudes dos meus filhos, na minha saúde, nas minhas relações com amigos e pessoas conhecidas, no desempenho das tarefas do dia-a-dia (começo a ter medo de conduzir, pois não me consigo concentrar o suficiente), no meu trabalho e nas minhas actividades intelectuais (detesto o termo, mas aqui não posso caracterizá-las melhor). Relativamente a essas actividades, e talvez até em relação ao meu trabalho, não é certamente surpresa para ti, pois a sua crescente falta de qualidade tem expressão pública. Mas claro que isso não te impressionou nem te levou a repensar o teu comportamento.
Passar-se-ia provavelmente o mesmo se descobrisses este Blog e lesses algumas das suas linhas.
Espero que essa maneira de ser (que não assumes e que nada tem a ver com a imagem que procuras transmitir de ti e em que talvez acredites) te assegure a felicidade e te livre de todo o mal.
terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
O melhor poema de amor que já li: Sonhos pisados
He Wishes For The Cloths Of Heaven
Had I
the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
William Butler Yeats
Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,
deitava-as todas aos teus pés.
Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.
(Traução de Miguel Esteves Cardoso)
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,
deitava-as todas aos teus pés.
Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.
(Traução de Miguel Esteves Cardoso)
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Poesia,
Pus outra flor no teu carro
A necessidade de amor
Recordou pela enésima vez a amarga conversa em que ela, no início de uma noite de Janeiro depois de uma reunião de trabalho, lhe tinha dito que precisava estar apaixonada para suportar a vida que tinha: um marido que não amava e que não tratava de modo igual o filho de ambos e os filhos que ela trazia de outro casamento, um trabalho que não a realizava intelectualmente, as más recordações e as marcas de algumas coisas dolorosas que a vida lhe trouxera…
E então contou (depois da deselegância de lhe pedir segredo, como se tal fosse necessário) uma das várias coisas importantes que, em meses de conversa, lhe omitira. Quando o tinha conhecido estava apaixonada por um homem, oficialmente seu amigo, que também a amava. Tratava-se de um amor platónico mas intenso. E acusou-o de lhe ter roubado esse amor: “Quando me interessei por ti deixei de o amar e agora não tenho nada.”
Nos meses de afastamento que se seguiram ele pensou muitas vezes nessa acusação e na palavra por ela utilizada: “interessei”. Ela nunca dissera, em nenhum momento dos quatro anos que passaram desde que se conheceram, que estava apaixonada por ele. Dizia “gosto de ti”, mas evitava a palavra “amor”.
Depois disso reconciliaram-se e afastaram-se novamente diversas vezes, mas as palavras que ela proferira naquela noite perseguiram-no sempre. Magoavam-no como uma faca a espetada no peito. “Ela disse que precisava de estar apaixonada… Talvez tenha arranjado alguém de quem goste. Uma pessoa que conheceu entretanto ou talvez alguém do seu passado que regressou. Se calhar foi por isso que se afastou de mim outra vez.”
Mas ele gostava tanto dela que se obrigava a desejar que isso fosse verdade -caso a fizesse feliz.
domingo, 3 de Janeiro de 2010
Para outros que não tu e eu
Jurou-me eterno
amor. A noite ia cahindo
E, entre outras phantasias,
Eu disse-lhe sorrindo:
Se Deus surgisse agora, aqui, perante nós
O que é que lhe dizias?
- Que nos deixasse sós...
E, entre outras phantasias,
Eu disse-lhe sorrindo:
Se Deus surgisse agora, aqui, perante nós
O que é que lhe dizias?
- Que nos deixasse sós...
AUGUSTO GIL
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Pus outra flor no teu carro
Amar completamente só
FÁCIL E DIFÍCIL
Falar é completamente fácil
quando se tem palavras em mente
que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes
o que realmente queremos dizer...
Fácil é julgar pessoas que
estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros...
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém,
dizer o que ela deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas horas
e dizer sempre a verdade quando for preciso...
Fácil é analisar a situação alheia
e poder aconselhar sobre esta.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência
quando algo lhe deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém
que realmente te conhece...
Fácil é viver sem ter que se preocupar
com o amanhã.
Difícil é questionar e tentar melhorar
suas atitudes impulsivas e às vezes impetuosas,
a cada dia que passa...
Fácil é mentir aos quatro ventos
o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração...
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos
com o que achávamos ter visto...
Fácil é brincar como um tolo.
Difícil é ter que ser sério...
Fácil é dizer "oi", ou "como vai?".
Difícil é dizer "adeus"...
Fácil é abraçar, apertar a mão.
Difícil é sentir a energia que é transmitida...
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só...
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência...
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado
para escutar esta resposta...
Fácil é querer ser o que quiser.
Difícil é ter certeza do que realmente és...
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar (ou vice-versa)...
Fácil é beijar.
Difícil é entregar a alma...
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém...
Fácil é ferir quem nos ama.
Difícil é tentar curar esta ferida...
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las...
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho...
Fácil é exibir sua vitória a todos.
Difícil é assumir a sua derrota com dignidade...
Fácil é admirar uma lua cheia.
Difícil é enxergar sua outra face...
Fácil é viver o presente.
Difícil é se desenvencilhar do passado...
Fácil é saber que está rodeado por pessoas queridas.
Difícil é saber que está se sentindo só no meio delas...
Fácil é tropeçar em uma pedra.
Difícil é levantar de uma queda, toda machucada...
Fácil é desfrutar a vida a cada dia.
Difícil é dar o verdadeiro valor a ela...
Fácil é rezar todas as noites.
Difícil é encontrar Deus nas pequenas coisas...
Carlos Drummond de Andrade
quando se tem palavras em mente
que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes
o que realmente queremos dizer...
Fácil é julgar pessoas que
estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros...
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém,
dizer o que ela deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas horas
e dizer sempre a verdade quando for preciso...
Fácil é analisar a situação alheia
e poder aconselhar sobre esta.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência
quando algo lhe deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém
que realmente te conhece...
Fácil é viver sem ter que se preocupar
com o amanhã.
Difícil é questionar e tentar melhorar
suas atitudes impulsivas e às vezes impetuosas,
a cada dia que passa...
Fácil é mentir aos quatro ventos
o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração...
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos
com o que achávamos ter visto...
Fácil é brincar como um tolo.
Difícil é ter que ser sério...
Fácil é dizer "oi", ou "como vai?".
Difícil é dizer "adeus"...
Fácil é abraçar, apertar a mão.
Difícil é sentir a energia que é transmitida...
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só...
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência...
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado
para escutar esta resposta...
Fácil é querer ser o que quiser.
Difícil é ter certeza do que realmente és...
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar (ou vice-versa)...
Fácil é beijar.
Difícil é entregar a alma...
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém...
Fácil é ferir quem nos ama.
Difícil é tentar curar esta ferida...
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las...
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho...
Fácil é exibir sua vitória a todos.
Difícil é assumir a sua derrota com dignidade...
Fácil é admirar uma lua cheia.
Difícil é enxergar sua outra face...
Fácil é viver o presente.
Difícil é se desenvencilhar do passado...
Fácil é saber que está rodeado por pessoas queridas.
Difícil é saber que está se sentindo só no meio delas...
Fácil é tropeçar em uma pedra.
Difícil é levantar de uma queda, toda machucada...
Fácil é desfrutar a vida a cada dia.
Difícil é dar o verdadeiro valor a ela...
Fácil é rezar todas as noites.
Difícil é encontrar Deus nas pequenas coisas...
Carlos Drummond de Andrade
(Terás sido tu que...?)
Em ruínas
“Como estás?”, perguntaste-me no outro dia. Não respondi, pois considero que antes de eu dizer seja o que for tu deverias primeiro dizer muitas coisas. Mas mesmo que eu quisesse responder não conseguiria. Como poderia explicar-te que agora sou como uma casa suja, desarrumada, esburacada e fria, muito fria. Uma ruína. Entra água e vento e as paredes e o telhado tremem. O desabamento é eminente.
As metáforas estão gastas, como tudo o que eu digo, mas são verdadeiras. Estou a ir-me abaixo. Eu continuo a tentar - todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Mas é cada vez mais difícil… A felicidade dos meus filhos é um dever absoluto para mim, mas a força que isso me dá muitas vezes já não é suficiente.
Não posso matar-me, pois isso iria persegui-los a vida toda. Mas se descobrisse que uma das minhas várias doenças é mortal juro que ficaria… Contente? Não, não é essa a palavra, claro. Se descobrisse que iria morrer daqui a alguns dias sentiria um enorme alívio. Alívio por saber que este inferno iria acabar. Alívio por saber que iria deixar de sentir esta queimadura.
Felizmente nos últimos meses tive vários problemas de saúde graves: isso permitiu justificar cá em casa a tristeza e o desespero que deixei de conseguir disfarçar.
Nunca irás ler estas palavras. Mas sei, devido ao que aconteceu no passado, que mesmo que lesses isso não modificaria em nada a tua atitude. És indiferente ao meu sofrimento. O que, como facilmente calcularás meu querido amor, não contribui para diminuí-lo.
sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
Desculpas surpreendentes
Não sei se tens consciência, mas todas as vezes que nos reaproximámos e nos reconciliámos tu, surpreendentemente, pediste-me desculpa. Esses pedidos de desculpa surpreenderam-me por dois motivos.
Primeiro motivo. A iniciativa do afastamento tinha sido tua e durante meses ignoraste ou recusaste os meus apelos, mesmo os mais lancinantes e patéticos, para conversarmos e esclarecermos as coisas. Nas poucas palavras que trocámos nesses meses de afastamento deixaste sempre claro que consideravas que a culpa era minha. Mas um dia lá estavas tu a dizer “desculpa”. Isto repetiu-se várias vezes - cinco ou seis, já nem sei bem.
Segundo motivo. Em nenhuma dessas cinco ou seis vezes consegui perceber bem qual era exactamente o comportamento que reconhecias ter sido errado e que te levava a pedir desculpa. Ao conversar contigo tentei perceber qual era, visto por ti e descrito pelas tuas palavras, esse comportamento, mas nunca consegui que me respondesses com clareza. Por isso, nunca me surpreendeu que tudo se tenha repetido vez após vez.
E aqui estamos nós outra vez. Só que desta vez as coisas são diferentes. Contrariamente ao que sucedeu no passado, agora sei de ciência certa que não gostas nem nunca gostaste de mim. Claro que isso não me impede de continuar a amar-te, mas as minhas feridas são demasiado extensas e profundas para te desculpar caso tu me pedisses desculpa.
Seja como for, julgo que desta vez não pedirás desculpa, pois sabes que eu percebi que és uma pessoa falsa e mentirosa e não tens coragem suficiente para assumir os teus defeitos. Sim, sim, meu amor, estou a chamar-te cobarde.
Amor único
Frank Sinatra: My One and Only Love.
John Coltrane & Johnny Hartman: my one and only love.
Normalmente Frank Sinatra arrasa a concorrência. Mas desta vez perdeu. Por poucos, mas perdeu. Para ti, que és o meu único amor.
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Um belíssimo Ano Novo para ti, meu amor
Receita de ano novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
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quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
Balanço da vida
Em vez do tradicional balanço do
ano que se costuma fazer nesta época, eu preciso é de fazer um balanço da minha
vida. Será mais rápido, pois não há muito para dizer. Exceptuando os filhos,
nunca fiz nada que prestasse e que mereça um segundo olhar.
O facto de não gostares de mim é
doloroso. Mais doloroso ainda é o facto de me tratares como se eu fosse um
objecto que de vez em quando tens vontade de usar e que depois, quando te
fartas, colocas na gaveta ou jogas para um canto. Mas isso tem pelo menos uma vantagem.
Explico-a em poucas palavras.
As pessoas têm uma tendência
natural para se sobrevalorizarem. Vêem-se como melhores do que realmente são. Fazem isso
com sinceridade, a despeito de qualquer tentativa de imparcialidade que também
façam. É uma coisa muito mais profunda que a vaidade. Trata-se de um
amor-próprio que ajuda a viver, pois dá segurança e confiança nos momentos mais
difíceis e nas alturas em que é preciso fazer escolhas. Mas, apesar disso, não
deixa de ser uma ilusão.
A vantagem que referi atrás tem a
ver com isto: consegui superar essa tendência natural. O modo como me tens
tratado ajudou-me a furar esse véu de auto-complacência e a ver-me como
realmente sou sob a luz pura da verdade: uma pessoa sem qualidades, uma pessoa
que não presta para nada - uma porcaria qualquer que repugna tocar ou mesmo olhar, um pedaço de lixo. Se eu tivesse algum valor, por pequenino que fosse,
tu não me terias tratado assim. Mesmo que não gostasses de mim, não terias
brincado com os meus sentimentos nem me terias usado e jogado fora como se eu
fosse um objecto estragado.
Acho que a verdade, por dura e
difícil que seja, é sempre preferível à mentira e à ilusão. Por isso, obrigado
por essa preciosa dádiva, meu amor.
quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
O combustível da vida ou o engano de Fernando Pessoa
O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.
Fernando Pessoa, Quadras
Fernando Pessoa enganou-se no
que a isto diz respeito. O amor pode ser infinitamente triste e irmão do
desespero, mas cinza não. Não, cinza não. Talvez borralho, pois este ainda
guarda algumas sementes de fogo, mas cinza não. E quanto à razão… Por muitas
voltas que dê, por muitos raciocínios e teorias que engendre, acaba sempre por
regressar ao teu rosto e às tuas mãos (as partes do teu corpo que melhor
conheço) e aprovar-te, reconhecer-te como uma espécie de combustível da vida.
Poluente, tóxico até, mas indispensável para pôr as coisas em movimento.
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Depois das promessas serem quebradas resta falar através do silêncio
Quando ontem te sentaste na minha mesa no café e me disseste estar bem fiquei contente. Foi bom ouvir novamente a tua voz. Foi bom ver-te assim de perto e poder olhar para os teus olhos e para a tua pele. A razão pela qual fiquei em silêncio a olhar para ti e não respondi a algumas das tuas perguntas e respondi através de monossílabos às outras explica-se em poucas palavras.
Quando há 14 ou 15 meses voltámos a conversar, depois de - com a “ajuda” de uma mentira - te teres afastado de mim devido à saturação e tensão provocadas pelos nossos encontros clandestinos, pedi-te para não me voltares a mentir. Pedi-te que se voltasses a sentir a tal saturação e tensão (ou “sufocamento”, como lhe chamaste) me dissesses. Pedi-te que se sentisses necessidade de passar um período sem te encontrares comigo me dissesses. Eu compreenderia e aceitaria e faríamos isso de comum acordo. Pedi-te para não fazeres o que tinhas feito das outras vezes, ou seja, ires pouco a pouco arrefecendo e distanciando-te progressivamente, mas sem assumir que o estavas a fazer. Concordaste comigo e disseste-me que agirias assim. Prometeste. PROMETESTE. Mas não foi isso que fizeste. Não cumpriste a tua promessa. Depois de um período em que havia alguma reciprocidade e partilha na nossa relação, em que tal como eu tinhas a iniciativa de propor encontros e telefonemas, começaste a ter cada vez menos iniciativas e a ter cada vez mais impedimentos quando era eu a propor alguma coisa - mesmo um mero telefonema ou SMS. E eu deixei de saber com o que podia contar e recomecei a tactear no escuro - lembras-te desta metáfora?
Se eu nas minhas relações contigo agisse de acordo com a minha maneira de ser e com os meus hábitos, depois de alguns sinais desse novo arrefecimento teríamos conversado abertamente sobre o assunto. Mas, infelizmente, o facto de nos primeiros meses da nossa relação nos termos desentendido algumas vezes porque tu reagiste mal a certas ironias e críticas (apesar de serem, segundo me lembro, muito levezinhas e construtivas) fez com que eu pensasse sempre duas vezes antes de te dirigir palavras que pudesses interpretar como críticas. (Tu não reconheces isso, mas lidas mal com as críticas.) Por isso, apesar dos referidos sinais se irem repetindo, não pus as coisas em pratos limpos e o peso e o mal-estar das palavras não ditas foi-se acumulando. O efeito é que, de conversa para conversa, estávamos menos à vontade e a conversa seguinte era sempre menos livre e gratificante que a anterior.
Depois de uma conversa (em Julho) que não correu bem (em que também passei o tempo quase todo em silêncio, pois achava que tu é que devias falar) e em que não foste capaz de assumir o teu comportamento, acabei por te questionar acerca do teu arrefecimento e progressivo afastamento. Fi-lo por email e com pezinhos de lã, procurando que não parecesse uma crítica nem uma culpabilização (não faço isto com mais ninguém a não ser contigo, com as outras pessoas ou falo com franqueza ou não falo sequer). Mesmo assim, foste incapaz de assumir o teu comportamento: “não me afastei mais do que o habitual”, escreveste tu. Aparentemente tinhas esquecido a tua promessa: avisar-me caso sentisses necessidade de te afastar - fosse ou não mais que o “habitual”.
Depois disso não nos voltámos a encontrar nem a telefonar e eu deixei de mandar emails e comecei a responder laconicamente aos que me enviaste (falando disto e daquilo, como se não existisse problema nenhum). A certa altura deixei mesmo de te responder e, quando no início de Setembro me mandaste duas linhas (simpáticas e adequadas às minhas circunstâncias profissionais, mas ainda assim falando disto e daquilo e não do problema que tínhamos em mãos), escrevi-te uma curta e sincera resposta dizendo que és uma pessoa hipócrita. E tu deste-me razão, pois em vez de falar desse problema fizeste a tua típica fuga para a frente: bloqueaste o meu endereço de email e até o Twitter.
Disse-te duas ou três vezes que quando uma pessoa não responde a outra está a desvalorizá-la, está a dizer-lhe que ela não importa. Porém, as coisas nem sempre são o que parecem. Se considerarmos o contexto, há mais comunicação no meu silêncio de Julho e de ontem, e nos meus emails lacónicos e até nos que não mandei, do que nas tuas palavras de circunstância. Eu calei-me por achar que tu é que devias falar primeiro. Calei-me porque estava, e estou, à espera da tua resposta a perguntas importantes que te fiz. Calei-me porque estava, e estou, à espera de uma explicação que me deves dar. Ao calar-me desse modo ostensivo estava ainda a comunicar contigo. Pelo contrário, as tuas palavras de circunstância foram um véu sobre os problemas existentes e uma forma de não falares acerca daquilo que manifestamente deves falar.
Tu sabes que é esse o significado do meu silêncio. E sabes também que a palavra “hipócrita” não foi usada te insultar, mas apenas para te pedir que digas a verdade - a mim e a ti. Uma pessoa hipócrita é uma pessoa que mente a si mesma - sabes isso, não sabes? Claro que sabes. O problema é que tens medo da verdade.
Reconhecer que não gostas nem nunca gostaste realmente de mim não te custaria nada. Mas tu disseste muitas vezes que gostavas de mim. O que te custa é reconhecer que és uma pessoa capaz de dizer a outra pessoa que gosta dela embora não goste realmente, pois pretende apenas ter uma aventura. Isso não é compatível com o que dizes a teu respeito. Isso não é compatível com as coisas em que tentas acreditar a teu respeito. E essa é difícil verdade de que tens medo: não és a pessoa que dizes ser. Não és a pessoa que gostas de pensar que és.
Só mais uma coisinha, para terminar. Quando ontem te foste embora do café eu fui atrás de ti e fiquei a ver-te a andar à chuva enquanto te afastavas. Chamei-te uma vez para te desejar um bom Ano Novo, mas tu não te viraste (julgo que não ouviste), e eu desisti de levantar a voz. Disse baixinho o teu nome (como faço tantas vezes) e murmurei duas ou três vezes “gosto de ti”. Também não ouviste.
Valerá a pena viver a vida?
Cena do filme “Manhattan”, de Woody Allen: Why is life worth living?
É a famosa cena em que a personagem de Woody Allen faz uma lista das coisas que fazem com que a vida valha a pena viver: Groucho Marx, Sinatra, Mozart, os filmes de Ingmar Bergman, a "Educação Sentimental", o rosto de Tracy... Esqueceu-se de mencionar os filmes de Woody Allen e o teu rosto.
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segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
Os vestígios da beleza
Uma
vez "ofereci-te" (isto é, mandei-o num email) este poema. Respondeste
que era muito bonito. Pergunto-me se terá deixado algum vestígio,
alguma marca, na tua vida. Porque é suposto isso acontecer tanto com o
amor como com as coisas belas - deixam vestígios.
Prendo-me a uma coisa simples. Pode
ser o teu rosto naquele vidro, que eu vi
e não mais esqueci.
Faço do tempo um parapeito. E
debruço-me nele, à tua espera, sentindo
na madeira o calor do teu peito.
Ergo na areia um castelo de enigmas. E
fecho-te na tua torre, a castelã que me ensinou
a entrar sem saber por onde sair.
(Mas para que hei-de sair
de onde quero ficar?)
Nuno Júdice
ser o teu rosto naquele vidro, que eu vi
e não mais esqueci.
Faço do tempo um parapeito. E
debruço-me nele, à tua espera, sentindo
na madeira o calor do teu peito.
Ergo na areia um castelo de enigmas. E
fecho-te na tua torre, a castelã que me ensinou
a entrar sem saber por onde sair.
(Mas para que hei-de sair
de onde quero ficar?)
Nuno Júdice
sábado, 26 de Dezembro de 2009
O caminho mais longo
Há dias que não te vejo.
Actualmente, ver-te significa apenas ver o teu vulto a passar de carro ou avistar-te a algumas dezenas de metros num qualquer sítio público desta cidadezinha mesquinha. Pouco mais de 10 segundos, mas o suficiente para me fazer ir pelo caminho mais longe se imaginar que isso aumenta a probabilidade de te ver. Nesses escassos segundos olho sempre para ti, mas não te falo nem sorrio - nem sequer nas raras vezes em que te dignas olhar para mim. Quando - antes de eu dizer que és “uma pessoa hipócrita” - me dirigias um “olá” cerimonial ou sorriso social eu não correspondia - limitava-me a olhar-te. Mesmo assim, vou sem hesitar pelo caminho mais longo se existir alguma pequenina possibilidade de, assim, te conseguir ver durante 10 segundos.
Por isso, não te ver há vários dias aumenta a amargura e dilata o vazio que vêm do facto de não me amares e de me teres tratado tão mal.
sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
Memória a arder
Uma vez que penso em ti inúmeras
vezes ao longo do dia, a tua recordação costuma encontrar-me nas situações mais
diversas: doente, a passear com os meus filhos, a almoçar ou a jantar, lutando
com o trabalho acumulado, lendo, na casa de banho, antes de adormecer, ao acordar…
Mas ontem a recordação de ti visitou-me
numa situação mais peculiar e inesperada. E mais patética também. Ia a entrar
num café quando vi, ao fundo, um homem rodeado de duas ou três pessoas que,
manifestamente atrapalhadas, lhe diziam “Carlos,
Carlos… mas o que fizeste tu? Estás bem? O que se passa contigo?”. O dito Carlos
estava provavelmente bêbado e tinha colocado aguardente num pires de café e
depois deitara-lhe fogo. Avancei dois passos e juro que vi o teu bonito rosto
no fogo que ardia no pires de café. Sorrias, mas calculo que não fosse para
mim. Seja como for, a tua aparição foi breve e, assim que desapareceste e o fogo se tornou apenas fogo a arder estupidamente num estúpido pires de café, fui-me embora, indiferente à sorte do tal Carlos.
quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
O último poema de Natal
Natal
Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa...
Industrializar o tema,
eis o mal.
Carlos Drummond de Andrade.
Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa...
Industrializar o tema,
eis o mal.
Carlos Drummond de Andrade.
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Canções velhinhas para mostrar aos filhos 6: Não vale a pena comprar sonhos!
Ricky Nelson: "Lonesome Town".
Não sei quem escreveu a letra da canção, mas estava enganado: nem em Lonesome Town se consegue aprender a esquecer.
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Canções velhinhas para mostrar aos filhos 5: Love will tear us apart again and again
“Love will
tear us apart” dos Joy Division.
(Devia ter sido obviamente a primeira canção desta "série", mas será a penúltima. Depois desta só publicarei mais uma. Não que não existam muitas mais canções Pop e Rock com uns aninhos merecedoras de serem conhecidas pelos nossos filhos. Claro que não é por isso.)
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quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Em branco
Uma vez mandei-te um email em branco. De outra vez foi um sms: em branco, sem nada escrito. Fizeste o mesmo que tinhas feito em ocasiões em que escrevi centenas de palavras: nada, não respondeste. Não respondeste porque sabes que não responder a uma pessoa que fala connosco é o mesmo que dizer-lhe que ela não vale nada, que ela não conta, que ela não existe.
terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Música de Natal 7: uma canção de Natal tão superficial como o próprio Natal!
Brenda Lee canta "Rockin' Around The Christmas Tree".
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Música de Natal 6: até o Bob Dylan...
Bob Dylan, "Must Be Santa". Mais uma canção de Natal, desta vez numa voz inesperada.
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segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
Há sempre problemas piores que os nossos
Passei a porcaria do dia a pensar em ti e mais triste que a própria tristeza, mas é verdade: há sempre problemas piores que os nossos. Muito piores.
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Canções velhinhas para mostrar aos filhos 4: When Love Breaks Down
Prefab Sprout, "When Love Breaks Down".
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domingo, 20 de Dezembro de 2009
Poemas de Natal 4: feitos para chorar
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
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Poemas de Natal 3: estou só e sonho saudade...
Poema de Natal
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa
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Avatar: nada de realmente novo debaixo do sol
Trailer do filme "Avatar", de James Cameron .
A cor da pele das pessoas pode ser azul, a composição da atmosfera pode ser muito diferente da nossa, a fauna e a flora podem ser ainda mais do que estranhas, mas ao fim e ao cabo tudo gira sempre à volta do mesmo: o poder e o amor. Mesmo que os nomes não sejam os mesmos. E não me parece que seja falta de imaginação dos argumentistas. Não. O que sucede é que é assim que as coisas são. Na Terra ou em Pandora.
Música de Natal 5: Vira o vento e não muda a sorte!
José Afonso, "Natal dos simples" do álbum "Os Vampiros". Uma canção "de" Natal num disco muito pouco natalício.
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Poemas para crianças 5: Irene das cores da luz
IRENE NO CÉU
Manuel
Bandeira
Irene
preta
Irene
boa
Irene
sempre de bom humor
Imagino
Irene entrando no céu:
-
Licença, meu branco!
E
São Pedro Bonacheirão:
-
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
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sábado, 19 de Dezembro de 2009
Canções velhinhas para mostrar aos filhos 3: Se eu fosse um homem como deve ser... tu gostarias de mim
Pink Floyd, "If", do álbum "Atom Heart Mother".
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sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
O fim do sonho
Quase nunca me lembro dos sonhos.
E quando, muito ocasionalmente, me lembro costumam ser apenas imagens
desgarradas e sem ligação, incapazes de contar ou sequer sugerir uma história.
Mas ontem, no pouco tempo que dormi, tive um sonho que consigo recordar com
inesperada e estranha nitidez. Um sonho que conta uma história. Sonhei que
salvava um dos teus filhos de um perigo medonho qualquer (não se percebia ao
certo a sua natureza, excepto que era algo muito perigoso e assustador). Depois,
oh, depois tu aproximavas-te de mim, sorrias e, no preciso momento em que
estavas a começar uma frase qualquer, eu acordei. Durante dois ou três
segundos, naquele período em que a confusão do sono mistura o sonho e a
realidade, e em que ainda não estamos bem cientes de já termos acordado,
deixei-me atrapalhar por esta dúvida: “Respondo ou viro-lhe as costas?
Chamo-lhe outra vez hipócrita ou aceito conversar?” Patético, não é? O melhor é
nem interpretar, pois nenhuma das hipóteses explicativas abona a meu favor.
Mas, já agora, o que é que me ias dizer? Que frase era
aquela que ias dizer antes de eu acordar e o sonho acabar?
quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Canções velhinhas para mostrar aos filhos 2: Em nome do amor
U2 - Pride (In The Name Of Love)
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