Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Balanço da vida


 
Em vez do tradicional balanço do ano que se costuma fazer nesta época, eu preciso é de fazer um balanço da minha vida. Será mais rápido, pois não há muito para dizer. Exceptuando os filhos, nunca fiz nada que prestasse e que mereça um segundo olhar.
O facto de não gostares de mim é doloroso. Mais doloroso ainda é o facto de me tratares como se eu fosse um objecto que de vez em quando tens vontade de usar e que depois, quando te fartas, colocas na gaveta ou jogas para um canto. Mas isso tem pelo menos uma vantagem. Explico-a em poucas palavras.
As pessoas têm uma tendência natural para se sobrevalorizarem. Vêem-se como melhores do que realmente são. Fazem isso com sinceridade, a despeito de qualquer tentativa de imparcialidade que também façam. É uma coisa muito mais profunda que a vaidade. Trata-se de um amor-próprio que ajuda a viver, pois dá segurança e confiança nos momentos mais difíceis e nas alturas em que é preciso fazer escolhas. Mas, apesar disso, não deixa de ser uma ilusão.
A vantagem que referi atrás tem a ver com isto: consegui superar essa tendência natural. O modo como me tens tratado ajudou-me a furar esse véu de auto-complacência e a ver-me como realmente sou sob a luz pura da verdade: uma pessoa sem qualidades, uma pessoa que não presta para nada - uma porcaria qualquer que repugna tocar ou mesmo olhar, um pedaço de lixo. Se eu tivesse algum valor, por pequenino que fosse, tu não me terias tratado assim. Mesmo que não gostasses de mim, não terias brincado com os meus sentimentos nem me terias usado e jogado fora como se eu fosse um objecto estragado.
Acho que a verdade, por dura e difícil que seja, é sempre preferível à mentira e à ilusão. Por isso, obrigado por essa preciosa dádiva, meu amor.

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O combustível da vida ou o engano de Fernando Pessoa

O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.

Fernando Pessoa, Quadras

Fernando Pessoa enganou-se no que a isto diz respeito. O amor pode ser infinitamente triste e irmão do desespero, mas cinza não. Não, cinza não. Talvez borralho, pois este ainda guarda algumas sementes de fogo, mas cinza não. E quanto à razão… Por muitas voltas que dê, por muitos raciocínios e teorias que engendre, acaba sempre por regressar ao teu rosto e às tuas mãos (as partes do teu corpo que melhor conheço) e aprovar-te, reconhecer-te como uma espécie de combustível da vida. Poluente, tóxico até, mas indispensável para pôr as coisas em movimento.

Depois das promessas serem quebradas resta falar através do silêncio



Quando ontem te sentaste na minha mesa no café e me disseste estar bem fiquei contente. Foi bom ouvir novamente a tua voz. Foi bom ver-te assim de perto e poder olhar para os teus olhos e para a tua pele. A razão pela qual fiquei em silêncio a olhar para ti e não respondi a algumas das tuas perguntas e respondi através de monossílabos às outras explica-se em poucas palavras.

Quando há 14 ou 15 meses voltámos a conversar, depois de - com a “ajuda” de uma mentira - te teres afastado de mim devido à saturação e tensão provocadas pelos nossos encontros clandestinos, pedi-te para não me voltares a mentir. Pedi-te que se voltasses a sentir a tal saturação e tensão (ou “sufocamento”, como lhe chamaste) me dissesses. Pedi-te que se sentisses necessidade de passar um período sem te encontrares comigo me dissesses. Eu compreenderia e aceitaria e faríamos isso de comum acordo. Pedi-te para não fazeres o que tinhas feito das outras vezes, ou seja, ires pouco a pouco arrefecendo e distanciando-te progressivamente, mas sem assumir que o estavas a fazer. Concordaste comigo e disseste-me que agirias assim. Prometeste. PROMETESTE. Mas não foi isso que fizeste. Não cumpriste a tua promessa. Depois de um período em que havia alguma reciprocidade e partilha na nossa relação, em que tal como eu tinhas a iniciativa de propor encontros e telefonemas, começaste a ter cada vez menos iniciativas e a ter cada vez mais impedimentos quando era eu a propor alguma coisa - mesmo um mero telefonema ou SMS. E eu deixei de saber com o que podia contar e recomecei a tactear no escuro - lembras-te desta metáfora?

Se eu nas minhas relações contigo agisse de acordo com a minha maneira de ser e com os meus hábitos, depois de alguns sinais desse novo arrefecimento teríamos conversado abertamente sobre o assunto. Mas, infelizmente, o facto de nos primeiros meses da nossa relação nos termos desentendido algumas vezes porque tu reagiste mal a certas ironias e críticas (apesar de serem, segundo me lembro, muito levezinhas e construtivas) fez com que eu pensasse sempre duas vezes antes de te dirigir palavras que pudesses interpretar como críticas. (Tu não reconheces isso, mas lidas mal com as críticas.) Por isso, apesar dos referidos sinais se irem repetindo, não pus as coisas em pratos limpos e o peso e o mal-estar das palavras não ditas foi-se acumulando. O efeito é que, de conversa para conversa, estávamos menos à vontade e a conversa seguinte era sempre menos livre e gratificante que a anterior.

Depois de uma conversa (em Julho) que não correu bem (em que também passei o tempo quase todo em silêncio, pois achava que tu é que devias falar) e em que não foste capaz de assumir o teu comportamento, acabei por te questionar acerca do teu arrefecimento e progressivo afastamento. Fi-lo por email e com pezinhos de lã, procurando que não parecesse uma crítica nem uma culpabilização (não faço isto com mais ninguém a não ser contigo, com as outras pessoas ou falo com franqueza ou não falo sequer). Mesmo assim, foste incapaz de assumir o teu comportamento: “não me afastei mais do que o habitual”, escreveste tu. Aparentemente tinhas esquecido a tua promessa: avisar-me caso sentisses necessidade de te afastar - fosse ou não mais que o “habitual”.

Depois disso não nos voltámos a encontrar nem a telefonar e eu deixei de mandar emails e comecei a responder laconicamente aos que me enviaste (falando disto e daquilo, como se não existisse problema nenhum). A certa altura deixei mesmo de te responder e, quando no início de Setembro me mandaste duas linhas (simpáticas e adequadas às minhas circunstâncias profissionais, mas ainda assim falando disto e daquilo e não do problema que tínhamos em mãos), escrevi-te uma curta e sincera resposta dizendo que és uma pessoa hipócrita. E tu deste-me razão, pois em vez de falar desse problema fizeste a tua típica fuga para a frente: bloqueaste o meu endereço de email e até o Twitter.

Disse-te duas ou três vezes que quando uma pessoa não responde a outra está a desvalorizá-la, está a dizer-lhe que ela não importa. Porém, as coisas nem sempre são o que parecem. Se considerarmos o contexto, há mais comunicação no meu silêncio de Julho e de ontem, e nos meus emails lacónicos e até nos que não mandei, do que nas tuas palavras de circunstância. Eu calei-me por achar que tu é que devias falar primeiro. Calei-me porque estava, e estou, à espera da tua resposta a perguntas importantes que te fiz. Calei-me porque estava, e estou, à espera de uma explicação que me deves dar. Ao calar-me desse modo ostensivo estava ainda a comunicar contigo. Pelo contrário, as tuas palavras de circunstância foram um véu sobre os problemas existentes e uma forma de não falares acerca daquilo que manifestamente deves falar.

Tu sabes que é esse o significado do meu silêncio. E sabes também que a palavra “hipócrita” não foi usada te insultar, mas apenas para te pedir que digas a verdade - a mim e a ti. Uma pessoa hipócrita é uma pessoa que mente a si mesma - sabes isso, não sabes? Claro que sabes. O problema é que tens medo da verdade.

Reconhecer que não gostas nem nunca gostaste realmente de mim não te custaria nada. Mas tu disseste muitas vezes que gostavas de mim. O que te custa é reconhecer que és uma pessoa capaz de dizer a outra pessoa que gosta dela embora não goste realmente, pois pretende apenas ter uma aventura. Isso não é compatível com o que dizes a teu respeito. Isso não é compatível com as coisas em que tentas acreditar a teu respeito. E essa é difícil verdade de que tens medo: não és a pessoa que dizes ser. Não és a pessoa que gostas de pensar que és.

Só mais uma coisinha, para terminar. Quando ontem te foste embora do café eu fui atrás de ti e fiquei a ver-te a andar à chuva enquanto te afastavas. Chamei-te uma vez para te desejar um bom Ano Novo, mas tu não te viraste (julgo que não ouviste), e eu desisti de levantar a voz. Disse baixinho o teu nome (como faço tantas vezes) e murmurei duas ou três vezes “gosto de ti”. Também não ouviste.

Valerá a pena viver a vida?



Cena do filme “Manhattan”, de Woody Allen: Why is life worth living?

É a famosa cena em que a personagem de Woody Allen faz uma lista das coisas que fazem com que a vida valha a pena viver: Groucho Marx, Sinatra, Mozart, os filmes de Ingmar Bergman, a "Educação Sentimental", o rosto de Tracy... Esqueceu-se de mencionar os filmes de Woody Allen e o teu rosto.

Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Os vestígios da beleza

Uma vez "ofereci-te" (isto é, mandei-o num email) este poema. Respondeste que era muito bonito. Pergunto-me se terá deixado algum vestígio, alguma marca, na tua vida. Porque é suposto isso acontecer tanto com o amor como com as coisas belas - deixam vestígios.
Prendo-me a uma coisa simples. Pode
ser o teu rosto naquele vidro, que eu vi
e não mais esqueci.

Faço do tempo um parapeito. E
debruço-me nele, à tua espera, sentindo
na madeira o calor do teu peito.

Ergo na areia um castelo de enigmas. E
fecho-te na tua torre, a castelã que me ensinou
a entrar sem saber por onde sair.

(Mas para que hei-de sair
de onde quero ficar?)


Nuno Júdice

Sábado, 26 de Dezembro de 2009

O caminho mais longo

Há dias que não te vejo.

Actualmente, ver-te significa apenas ver o teu vulto a passar de carro ou avistar-te a algumas dezenas de metros num qualquer sítio público desta cidadezinha mesquinha. Pouco mais de 10 segundos, mas o suficiente para me fazer ir pelo caminho mais longe se imaginar que isso aumenta a probabilidade de te ver. Nesses escassos segundos olho sempre para ti, mas não te falo nem sorrio - nem sequer nas raras vezes em que te dignas olhar para mim. Quando - antes de eu dizer que és “uma pessoa hipócrita” - me dirigias um “olá” cerimonial ou sorriso social eu não correspondia - limitava-me a olhar-te. Mesmo assim, vou sem hesitar pelo caminho mais longo se existir alguma pequenina possibilidade de, assim, te conseguir ver durante 10 segundos.

Por isso, não te ver há vários dias aumenta a amargura e dilata o vazio que vêm do facto de não me amares e de me teres tratado tão mal.

Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Memória a arder


Uma vez que penso em ti inúmeras vezes ao longo do dia, a tua recordação costuma encontrar-me nas situações mais diversas: doente, a passear com os meus filhos, a almoçar ou a jantar, lutando com o trabalho acumulado, lendo, na casa de banho, antes de adormecer, ao acordar…
Mas ontem a recordação de ti visitou-me numa situação mais peculiar e inesperada. E mais patética também. Ia a entrar num café quando vi, ao fundo, um homem rodeado de duas ou três pessoas que, manifestamente atrapalhadas, lhe diziam “Carlos, Carlos… mas o que fizeste tu? Estás bem? O que se passa contigo?”. O dito Carlos estava provavelmente bêbado e tinha colocado aguardente num pires de café e depois deitara-lhe fogo. Avancei dois passos e juro que vi o teu bonito rosto no fogo que ardia no pires de café. Sorrias, mas calculo que não fosse para mim. Seja como for, a tua aparição foi breve e, assim que desapareceste e o fogo se tornou apenas fogo  a arder estupidamente num estúpido pires de café, fui-me embora, indiferente à sorte do tal Carlos. 


Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

O último poema de Natal

Natal


Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa...
Industrializar o tema,
eis o mal.

Carlos Drummond de Andrade.

Canções velhinhas para mostrar aos filhos 6: Não vale a pena comprar sonhos!



Ricky Nelson: "Lonesome Town".

Não sei quem escreveu a letra da canção, mas estava enganado: nem em Lonesome Town se consegue aprender a esquecer.

Canções velhinhas para mostrar aos filhos 5: Love will tear us apart again and again




“Love will tear us apart” dos Joy Division.
(Devia ter sido obviamente a primeira canção desta "série", mas será a penúltima. Depois desta só publicarei mais uma. Não que não existam muitas mais canções Pop e Rock com uns aninhos merecedoras  de serem conhecidas pelos nossos filhos. Claro que não é por isso.)


Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Em branco



Uma vez mandei-te um email em branco. De outra vez foi um sms: em branco, sem nada escrito. Fizeste o mesmo que tinhas feito em ocasiões em que escrevi centenas de palavras: nada, não respondeste. Não respondeste porque sabes que não responder a uma pessoa que fala connosco é o mesmo que dizer-lhe que ela não vale nada, que ela não conta, que ela não existe.

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Há sempre problemas piores que os nossos



Passei a porcaria do dia a pensar em ti e mais triste que a própria tristeza, mas é verdade: há sempre problemas piores que os nossos. Muito piores.

Canções velhinhas para mostrar aos filhos 4: When Love Breaks Down

Prefab Sprout, "When Love Breaks Down".

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Poemas de Natal 4: feitos para chorar


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinícius de Moraes

Poemas de Natal 3: estou só e sonho saudade...


Poema de Natal


Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa

Avatar: nada de realmente novo debaixo do sol



Trailer do filme  "Avatar", de James Cameron .

A cor da pele das pessoas pode ser azul, a composição da atmosfera pode ser muito diferente da nossa, a fauna e a flora podem ser ainda mais do que estranhas, mas ao fim e ao cabo tudo gira sempre à volta do mesmo: o poder e o amor. Mesmo que os nomes não sejam os mesmos. E não me parece que seja falta de imaginação dos argumentistas. Não. O que sucede é que é assim que as coisas são. Na Terra ou em Pandora.

Música de Natal 5: Vira o vento e não muda a sorte!




José Afonso, "Natal dos simples" do álbum "Os Vampiros". Uma canção "de" Natal num disco muito pouco natalício.

Poemas para crianças 5: Irene das cores da luz

IRENE NO CÉU 

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

O fim do sonho


Quase nunca me lembro dos sonhos. E quando, muito ocasionalmente, me lembro costumam ser apenas imagens desgarradas e sem ligação, incapazes de contar ou sequer sugerir uma história. Mas ontem, no pouco tempo que dormi, tive um sonho que consigo recordar com inesperada e estranha nitidez. Um sonho que conta uma história. Sonhei que salvava um dos teus filhos de um perigo medonho qualquer (não se percebia ao certo a sua natureza, excepto que era algo muito perigoso e assustador). Depois, oh, depois tu aproximavas-te de mim, sorrias e, no preciso momento em que estavas a começar uma frase qualquer, eu acordei. Durante dois ou três segundos, naquele período em que a confusão do sono mistura o sonho e a realidade, e em que ainda não estamos bem cientes de já termos acordado, deixei-me atrapalhar por esta dúvida: “Respondo ou viro-lhe as costas? Chamo-lhe outra vez hipócrita ou aceito conversar?” Patético, não é? O melhor é nem interpretar, pois nenhuma das hipóteses explicativas abona a meu favor.

Mas, já agora, o que é que me ias dizer? Que frase era aquela que ias dizer antes de eu acordar e o sonho acabar?

Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Canções velhinhas para mostrar aos filhos 2: Em nome do amor




U2 - Pride (In The Name Of Love)

Sonho agreste




Amália Rodrigues, "Rasga o passado".

Eu sei que não gostas de fado, nem mesmo da Amália, mas algumas destas palavras são... mil vezes verdadeiras.

(O vídeo, já agora, é feio e de mau gosto, mas não achei mais nada com esta canção.)

Um poema de Natal mais verdadeiro que a própria verdade



Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

1: Qual é melhor canção de amor de todos os tempos? - Beethoven???

Eis uma das mais prováveis improváveis vencedoras.



"O namenlose Freude", da ópera Fidelio de Beethoven. Dueto cantado por Christa Ludwig e Robert King.

Música de Natal 4 - Agora a sério: esta é a melhor canção de Natal de todos os tempos!



The Pogues & Kristy MacCol, "Fairytale of New York".

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Canções velhinhas para mostrar aos filhos 1: Bom Apetite!



Prefab Sprout - Appetite - 1985

Correcção algébrica



Errado. Y  =  amor não correspondido + sofrimento. Mas isto não é uma crítica, pois como é sabido os sentimentos não são voluntários. As pessoas não podem decidir apaixonar-se ou desapaixonar-se. Isso é algo que nos acontece e não algo que fazemos. Nenhuma equação de álgebra pode resolver isso. Não é pelo facto de não me amares que mereces críticas.

Birras

Ontem ouvi uma criancinha dizer à mãe: "Gosto de ti grande como o céu, mamã!" Logo a seguir fez uma birra. Grande. É também assim que gosto de ti: grande como o céu! Há diferenças e semelhanças entre as duas situações. Uma das diferenças é que quem faz as birras és tu. Uma das semelhanças é que, tal como a cansada mãe que vi ontem, eu continuo sempre a gostar de ti. Durante e depois da birra. Não sei o que aquela mãe pensará sobre isso, mas suponho que esta seja outra diferença: com o acumular das birras, tenho vindo perder a capacidade de reagir - às birras e à própria vida. Mas sei, e isso é ciência certa e não uma mera suposição, que se alguma vez lesses isto te limitarias a encolher os ombros e a dizer como disseste uma vez: "aguenta-te".

As cinzas e o borralho



Digam o que disserem os optimistas (e os homens de boa vontade, sempre dispostos a serem enganados mais uma vez),  não se consegue distinguir entre as cinzas e o borralho. Tal como não se consegue distinguir entre a mentira e a omissão ou entre a merda e o estrume.

Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

O vento do deserto


Um colega disse-me no outro dia que agora quase não me vê e que eu entro e saio sem dizer nada. E quando por acaso dizes já não há ironia nem humor, acrescentou. Murmurei qualquer coisa sobre o excesso de trabalho e o cansaço e afastei-me. Que lhe poderia eu dizer? A verdade? Então, deveria ter dito esta coisa estranha e incompreensível para quem está fora do inferno e vive tranquilo a sua vida: Nestes últimos meses sequei como uma árvore sem água e encolhi. Encolhi. E não digo nada porque não tenho nada para dizer, perdi as ideias e as palavras como uma árvore fustigada pelo vento perde os frutos e as folhas. Que lhe poderia eu dizer? Que a minha vida é fustigada por um vento vindo do deserto? O deserto da tua ausência, o deserto do teu silêncio, o deserto das tuas mentiras e omissões, o deserto das tuas contradições, o deserto da tua insensibilidade e egocentrismo, o deserto da tua falta de amor... Que lhe poderia eu dizer?

Se calhar Freud não se enganou em tudo o que disse


Caso não seja óbvio, o homem está sentado em cima do canhão de um tanque de guerra. E está sentado de um modo que o canhão está entre as pernas, como se fosse...

Porque os ramos não se movem para fazer amor

CANTO QUINTO

Pierino das Abelhas tem o nome de seu pobre pai
que tinha por sua vez o do avô,
enfim, os Pierinos das Abelhas não acabam mais
e faziam mel
com cheiro a menta.
A casa, a meia encosta,
distante da aldeia e do vale.

Fiquem sabendo que na América, pela primavera,
os comboios passam por planícies cobertas de macieiras e pessegueiros
e levam colmeias de abelhas
alcoviteiras de flor em flor
porque os ramos não se movem para fazer amor
nem chegam a gotejar dentro das campânulas.

Este é o mester de Pirìn na primavera:
leva as colmeias em passeio pelo campo
e espera à sombra que os rabos das abelhas,
gulosas e sem decoro, engravidem as flores.
Eis porque nascem os frutos, de outro modo
não existiriam maçãs, pêssegos, nada.

Tonino Guerra, "O Mel"

Domingo, 13 de Dezembro de 2009

Não, tu não és para mim!



Eu sei que não gostas muito de Jazz, mas esta canção...

Sábado, 12 de Dezembro de 2009

Prisão

Foi por pouco que esta manhã não tive um acidente de carro. Mais alguns centímetros para a esquerda e iria bater num carro que vinha em sentido contrário. É a sexta ou sétima vez que isso me acontece nos últimos dois anos. O motivo é sempre o mesmo: distraio-me porque vejo um carro parecido ao teu. Desta vez o carro nem sequer era da mesma cor e marca. A única semelhança eram as letras e dois dos números da matrícula. Mas, estupidamente, isso bastou para prender o meu olhar naquela direcção e me fazer esquecer o resto. Eu não queria ser assim. Eu não queria que o meu amor por ti, aliado ao teu desinteresse por mim, me estivesse a destruir a vida. Mas, estupidamente, é isso que está a acontecer. Não é só o meu olhar que fica preso à esperança de te ver, nem que seja por cinco segundos: é também a minha atenção, a minha inteligência, o meu coração - a minha vida inteira. E a troco de nada, pois eu não ganho nada por amar-te - só perco, perco, perco.

Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O medo mata o espanto



O medo mata o espanto, mas também a confiança. E impede o amor. Mesmo que não se tenha quatro braços e duas cabeças, o medo faz-se frequentemente convidado. E arruína o amor. De um dos lados.

Música clássica para crianças 1: O voo do moscardo



“O voo do moscardo”, de Nikolai Rimsky-Korsakov.

Poemas de Natal 2: Quem se perdeu na terra?

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira

Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

A estrela da tarde


A tarde vai a meio, um pouco fria mas agradável. Tenho uma hora e meio para mim e dois livros interessantes para continuar a ler. Mas nem as peripécias do romance nem o combate de ideias inimigas do ensaio conseguem sobrepor-se à tua imagem, no lugar desarrumado e instável que é a minha mente. Há muitos meses que não ouço uma palavra vinda da tua boca, mas as recordações que tenho de ti são tão intensas que falam com a tua voz, como se estivesses mesmo aqui ao lado. Tal como tu não falam comigo, mas  contrariamente a ti falam de um modo que eu consigo ouvir. Parece delírio, mas não é. Não que eu por vezes não delire, mas desta vez não é o caso.
O telemóvel em cima da mesa e uma cabine telefónica que avisto pela janela do Café reacendem o desejo de te telefonar, que nem durante o sono se extingue completamente. Mas telefonar-te para quê? Provavelmente bloqueaste o meu número e se porventura não bloqueaste é mais do que certo que não atenderias. Pior que isso. Mesmo que atendesses que te poderia eu dizer? Repetir que te amo? Isso só te faria encolher os ombros. Dizer que és hipócrita e insensível? Responderias que não é verdade, mas sem argumentar e fugindo rapidamente ao assunto. Contar-te que no outro dia te vi passar de carro e que esses cinco segundos me encheram o dia? Secavas-me com um distraído “ah, pois…”. Não, não valeria a pena dizer-te nenhuma dessas coisas, pois elas só te poderiam interessar se tu te interessasses por mim. O que não é o caso. Eu sou apenas um objecto que usaste durante algum tempo e que depois jogaste fora - como aquelas pessoas que vão de férias e abandonam o cão ou gato, pois o bicho podia atrapalhá-las quando fossem à praia ou ao restaurante.
Seja como for, mesmo que tentasse dizer-te essas coisas não iria conseguir. Se tentasse agora falar contigo as palavras rebentar-me-iam na boca como fruta podre mordida por distracção.
Meia hora do meu tempo livre já se foi e a tarde passou um pouco do meio. Uma vez que não consigo ler talvez não seja má ideia dar um passeio. Todas estas ruas são feias, mas não faz mal. O ar frio é bom e bate-me na cara com o mesmo desvelo com que um médico tentaria reanimar um doente inconsciente. Talvez um doente do coração, como eu. Três ou quatro passos depois da porta do Café e eis que a tua cara espreita entre as nuvens, no céu azul e cinzento.
Entretanto passaram algumas horas, mas parece que foi agora mesmo e que ainda te estou a ver. Olhei para ti como sempre faço quando te encontro, mas não te disse nada pois as palavras não conseguiram sair da garganta - apesar de serem um simples “Olá, boa tarde”. Como fazes quase sempre que me encontras, fingiste que não me vias.
O que fazias tu, lá no céu, no meio de todas aquelas frias nuvens? Tornaste-te uma estrela, foi?

Música fora do coração


Domingo, 6 de Dezembro de 2009

O preço da beleza




Não és uma pessoa muito campestre. É muito mais fácil imaginar-te na cidade do que no campo. Apesar disso, assim que vi esta bela fotografia lembrei-me de ti.

Lembrar-me de ti é algo que sucede sempre que encontro alguma coisa bela - fotografias, pinturas, músicas, poemas ou mesmo flores no jardim. É como se fosse um imposto que a beleza do mundo paga ao amor,
uma espécie de preço que as coisas belas que partilham o mundo contigo pagam para merecer alguma atenção. Porque, como é do conhecimento geral, o amor tem a tua cara e a tua voz.

Outro poema matemático: o xadrez e a álgebra dos outros

As Causas

Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite”, Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Sábado, 5 de Dezembro de 2009

Poemas para crianças 4: queres ser eu?


!


Experimenta falar pela minha boca,
Assoar-te pelo meu nariz…

Alexandre O’ Neill

Poemas para crianças 3: onde vais sozinho?


O PASTOR

Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho,
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Poemas para crianças 2: fala mais alto, está bem?!


?
Não ouvi bem o que disseste…
Alexandre O’ Neill
(Informação: o ponto de interrogação faz parte do poema.)

Príncipe esfarrapado: um poema de Natal fora de moda

NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.


Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.


Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.


Vitorino Nemésio

Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Amor estúpido, perguntas estúpidas: porque não voas?



As canções de Sérgio Godinho têm muitas qualidades. Uma das principais é o facto de gostares delas.

Sim, eu sei que esta é uma maneira estúpida de pensar. A explicação é simples: o meu amor por ti é estúpido. Estupidamente grande, estupidamente resistente e incondicional, estupidamente doloroso... Estupidamente estúpido!

Para quem não saiba e não queira ouvir a canção "A noite passada", a pergunta que aparece no título do post é um dos versos dessa canção. Eis a primeira estrofe:

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "Então porque não voas?"
e então tu olhaste, depois sorriste
abriste a janela e voaste

Um tique feio que parece belo


Nos últimos meses “apanhei” um tique de que não me consigo livrar: dizer o teu nome em voz baixa. Repito-o incessantemente. Por vezes, num único minuto digo-o uma dúzia de vezes, ou até mais. Digo quase sempre o nome, mas às vezes também digo o diminutivo - que ao falar contigo raramente utilizei, a não ser em esporádicas (e carinhosas) ironias.

A outra pessoa talvez pareça uma coisa bela, mas garanto que não é. Trata-se de uma acção meio inconsciente, quase compulsiva e com um não sei o quê de doentio. Queria poder fazer algo melhor com o meu amor por ti, mas essa miséria é o que me resta. Um tique.

Uma imagem perfeita da minha vida, sem dúvida!

Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Não mudem!



Esperemos que quando os tempos mudarem as vontades não mudem também, como tantas vezes sucede.

Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Coincidências fáceis de explicar


Hoje ao princípio da noite vi-te passar de carro. Eu ia ao supermercado, a pé, e não estava nada à espera de te ver - naquela zona da cidade, àquela hora e num feriado. Não sei se me viste, mas isso não interessa, pois para ti não faz nenhuma diferença ver-me ou não me ver. Sei de ciência certa que o facto seguinte também não te interessa para nada: quando tu passaste eu estava a pensar em ti.
Não é a primeira vez que isso sucede. Na verdade, já sucedeu dezenas de vezes, sempre em circunstâncias semelhantes: estarmos há meses sem falar um com o outro, nem de viva voz nem por escrito, estarmos os dois zangados um com o outro, e encontrar-te inesperadamente na rua ou noutro local público precisamente quando estava a pensar em ti.
Infelizmente não é preciso recorrer a nenhum fenómeno pouco natural para explicar essa “coincidência”. O que se passa é que eu estou quase, quase sempre a pensar em ti. Por isso, já houve muitos milhares de minutos na minha vida em que pensei em ti e tu não passaste por mim.
Já agora deixa-me dizer outra coisa que não te interessa nada de nada: quando há pouco te vi a passar de carro o meu coração bateu contra os ossos do peito.

Poemas para crianças 1: Avareza

EPIGRAMA

Levando um velho avarento
Uma pedrada no olho,
Põe-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo, doutor, não das dúzias,
Mas sim do médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

"Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro eu dou por isso."

Bogage