Em vez do tradicional balanço do
ano que se costuma fazer nesta época, eu preciso é de fazer um balanço da minha
vida. Será mais rápido, pois não há muito para dizer. Exceptuando os filhos,
nunca fiz nada que prestasse e que mereça um segundo olhar.
O facto de não gostares de mim é
doloroso. Mais doloroso ainda é o facto de me tratares como se eu fosse um
objecto que de vez em quando tens vontade de usar e que depois, quando te
fartas, colocas na gaveta ou jogas para um canto. Mas isso tem pelo menos uma vantagem.
Explico-a em poucas palavras.
As pessoas têm uma tendência
natural para se sobrevalorizarem. Vêem-se como melhores do que realmente são. Fazem isso
com sinceridade, a despeito de qualquer tentativa de imparcialidade que também
façam. É uma coisa muito mais profunda que a vaidade. Trata-se de um
amor-próprio que ajuda a viver, pois dá segurança e confiança nos momentos mais
difíceis e nas alturas em que é preciso fazer escolhas. Mas, apesar disso, não
deixa de ser uma ilusão.
A vantagem que referi atrás tem a
ver com isto: consegui superar essa tendência natural. O modo como me tens
tratado ajudou-me a furar esse véu de auto-complacência e a ver-me como
realmente sou sob a luz pura da verdade: uma pessoa sem qualidades, uma pessoa
que não presta para nada - uma porcaria qualquer que repugna tocar ou mesmo olhar, um pedaço de lixo. Se eu tivesse algum valor, por pequenino que fosse,
tu não me terias tratado assim. Mesmo que não gostasses de mim, não terias
brincado com os meus sentimentos nem me terias usado e jogado fora como se eu
fosse um objecto estragado.
Acho que a verdade, por dura e
difícil que seja, é sempre preferível à mentira e à ilusão. Por isso, obrigado
por essa preciosa dádiva, meu amor.












