Há semanas julguei durante algumas horas que tinha poucos meses de vida e descobri depois que não era assim. Tinha sido um equívoco, uma troca de nomes. Como na altura escrevi, senti que alguma coisa tinha mudado em mim. Achei que tinha redescoberto uma força que perdera e que a partir daí, embora continuando a gostar de ti, conseguiria não me deixar dominar pelo sofrimento.
Pura ilusão. Continua tudo na mesma. Mal consigo trabalhar. Durmo pouquíssimo e é raro o dia em que não acordo de madrugada. Hoje, por exemplo, acordei por volta das cinco da manhã e tinha-me deitado às duas. Não é nada bom para a minha saúde, claro que não é, tal como o excesso de álcool e de café. Mas não consigo evitar: nem os comprimidos para dormir me fazem dormir a noite toda. E não, não é por causa do café: já fiz várias vezes a experiência de não beber café nenhum e não durmo à mesma. O que se passa é que, dormindo todos os dias tão pouco, preciso de beber café para conseguir funcionar: conduzir, trabalhar, fazer a minha parte de tarefas domésticas, ter presença de espírito para interagir com os meus filhos, etc. Quanto ao álcool… tenho até vergonha de falar disso. Não se trata de beber até cair, mas sim de beber em cada refeição dois ou três copos a mais do que seria normal. Não se trata de beber para esquecer, como se costuma dizer, pois eu não consigo de modo nenhum esquecer. Bebo demais porque me embrutece e me ajuda a ter um pouco de insensibilidade: para não rebentar de desespero, para não começar a chorar de repente, para não me ir abaixo ainda mais. Ajuda nessas coisas, mas claro que não ajuda a saúde. Nem a auto-estima. Nem a dignidade.
Ainda não são sete da manhã e vejo o dia que começa como um insuportável deserto que tenho de percorrer e onde a preocupação dominante será: conseguirei ver-te hoje? Conseguirei ver-te a entrar no carro ou a passar rapidamente pelo meu? Vou percorrer esse deserto mais uma vez, e amanhã também o farei, pois não me esqueço dos meus deveres profissionais e familiares (embora os vá cumprindo com cada vez menos qualidade). Sim, vou viver mais um dia e amanhã direi o mesmo. Mas viver assim é viver com a morte e não com a vida.
