No outro dia vi-te numa rotunda. Não sei se me viste assim que eu te vi. Em vez de virar onde é costume dei uma volta à rotunda. E dessa segunda vez viste-me de certeza. Não tem sentido queixar-me do teu rosto de pedra e da frieza do olhar escondido atrás dos óculos de Sol, pois calculo que o meu rosto e o meu olhar não se mostraram menos impassíveis - embora o meu coração tenha ficado aos saltos. Como terá ficado o teu coração? Também inquieto ou indiferente?
E era ainda nisso que pensava, quando daí a meia hora entrei no Hospital. E, quando duas horas mais tarde entrei na sala de operações, era em ti que pensava e não nas perguntas da simpática e competente enfermeira. Quando acordei da anestesia fiquei contente por sentir poucas dores e por me ter lembrado primeiro dos meus filhos do que de ti. Claro que depois tu te vingaste e a tua imagem atormentou-me a tarde inteira e não me deixou dormir à noite. Sem surpresa, pois se não consigo dormir em casa como conseguiria dormir num quarto de Hospital?
