Ontem quase atropelei uma pessoa. Motivo: olhei para o lado pois pareceu-me ver o teu carro. Não é a primeira vez que isto me acontece. E em termos familiares e profissionais têm acontecido coisas quase tão graves como atropelar uma velhota em cima da passadeira.
Já não tenho palavras nem ânimo para descrever o meu desespero. Mas vamos supor que o fazia, ou pelo menos repetia o que já aqui escrevi e o que escrevi em emails que te enviei há meses. De que serviria? Já não tenho esperança que descubras este blogue, apesar de algumas “pistas” informáticas que deixei por aí há semanas atrás, e creio que não faz sentido revelar-te directamente a sua existência.
Mas vamos supor que o descobrias e que lias alguns posts. De que serviria isso? O meu desespero não é novidade para ti. Também sabes que não consigo dormir bem e que isso prejudica a minha saúde e a minha vida familiar e profissional. Há cerca de dois anos, numa altura em que também te tinhas afastado de mim, mandei-te um sms a implorar uma explicação e contei-te uma coisa para mostrar a minha necessidade dela: poucas horas antes quase que me tinha enfiado debaixo de um camião, tão pouca era a concentração com que conduzia. E respondeste: “Aguenta-te”! Lembras-te? Tinhas-te afastado de mim com uma mentira e mesmo assim a única coisa que tinhas para me dizer era “Aguenta-te”. E o que é estúpido é que, quando algum tempo depois voltaste a dizer que gostavas de mim, eu acreditei.
Se a possibilidade de eu ir contra um camião - e tu sabes que eu tenho filhos que andam comigo no carro - não te comoveu, não acredito que a possibilidade de eu atropelar uma velhota altere a tua atitude. Se por acaso descobrisses este blogue julgo que farias o que sempre fizeste: ignorarias, não responderias.
Não foi dessa vez que fui ao psiquiatra. Se não me engano foi na zanga anterior. Contei-te que tinha ido num email e falei-te da dificuldade de dormir e dos comprimidos (ou inúteis ou tão fortes que me deixam com sonolência e torpor o dia todo). Pelo meio mandei-te uma lista de livros adequados à idade do teu filho, que me tinhas pedido num encontro ocasional e imprevisto. Pois bem: respondeste falando dos livros e ignoraste a parte do psiquiatra e a parte que tinha a ver com o nosso afastamento.
Na imagem que - através de palavras, gestos e atitudes - transmites de ti não existe nenhuma referência a essa dureza, a essa insensibilidade. Infelizmente, esse não é sequer o único motivo que me leva a pensar que tu não és a pessoa que dizes ser.
O que é trágico é que eu apaixonei-me pela pessoa que dizias ser e agora, que sei que não és essa pessoa, continuo a gostar de ti. Já não sei quem és, mas amo-te. Apesar de já não acreditar que gostas de mim. Apesar de já não acreditar que alguma vez tenhas gostado de mim. Amo-te e quero-te tanto como aos meus filhos, apesar de saber que isso me está a destruir a vida.
A minha vida é um buraco sujo e sem saída.
