Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Incondicional, dúvida

Há vários anos atrás, o IRA (Exército Republicano Irlandês, grupo terrorista que se vê a si próprio – como é costume no terrorismo - como um grupo libertador) resolveu alargar o leque dos seus alvos. Por isso, além dos soldados, polícias e cidadãos anónimos ingleses, tentaram fazer atentados contra figuras políticas importantes e membros da família real. Como estes estavam especialmente bem protegidos pela polícia e serviços secretos, o mais alto que conseguiram chegar foi a um "modesto" nobre que era primo da rainha. Porém, a bomba que colocaram no seu barco de recreio não o matou a ele, mas sim o seu filho adolescente e mais dois ou três rapazes amigos.

Num documentário que vi há anos, a mãe contava que na última vez que vira o filho o tinha censurado devido ao seu fraco empenho na Escola e às consequentes más notas. Agora, sentia uma enorme e destrutiva dor provocada pela sua ausência definitiva, pela certeza que nunca mais o veria e pela falta que ele lhe fazia. Mas sentia também mágoa por essa ter sido a última coisa que lhe tinha dito – em vez de "gosto muito, muito de ti".

Claro que ele tinha errado e merecera ser repreendido, mas a sua falta era uma coisa pequena e pontual, insignificante face ao enorme amor que ela tinha por ele. De resto, mesmo que a falta do rapaz fosse maior e mais significativa, isso nada alteraria nos sentimentos da mãe, pois o seu amor por ele era incondicional.

No final do documentário, essa senhora disse que essa mágoa era tão insidiosa que, em muitos momentos dos longos dias e das longas noites (desde então ela não conseguia dormir bem), a fazia sofrer mais do que a própria dor provocada pela morte e pela ausência, apesar desta ser brutal.

---
 
Não percebeste onde eu queria chegar quando, há vários meses atrás, te mandei esta história? Ou não quiseste perceber? Mas relê agora a história - percebes? Percebes agora, meu amor?
 
Eu sei... A história é realmente grandiosa, mas eu estrago tudo quando digo "meu amor".