Terça-feira, 2 de Março de 2010

Omissões

Enquanto observava um pássaro a saltitar no chão, volteando em redor de uma poça de água onde de vez em quando mergulhava o bico, fez mentalmente a lista das omissões dela. Não foi o pássaro que o inspirou, pois já tinha feito essa lista na padaria, numa fila de trânsito matinal, na sala de espera do Hospital, no trabalho, nos cafés onde se encontrara com ela e onde por vezes absurdamente regressava…
Omissões. Tratava-se de factos importantes que ela só lhe contara tardiamente, apesar de antes terem ocorrido muitas conversas em que o relato desses factos teria sido pertinente. Ao pensar retrospectivamente nessas conversas, via nelas buracos, espaços vazios onde as omissões encaixavam tão bem que a diferença entre a omissão e a mentira se esbatia.
Só depois de muitas conversas ela lhe contara que o seu actual casamento é o terceiro e não o segundo, como ele e outras pessoas presumiam.
Só depois de muitas conversas ela lhe contara que, quando se envolvera com ela, o seu actual marido tinha uma namorada e que esta se sentira enganada.
Só depois de muitas conversas ela lhe contara que quando o conhecera estava apaixonada por um homem, viúvo e oficialmente seu amigo.
Pensou ainda em outra omissão, mas não é possível referi-la publicamente sem risco para a confidencialidade que é preciso preservar.
Enquanto o pássaro batia as asas e se elevava no ar, ele pensou que ainda piores que essas omissões de acontecimentos tinham sido as omissões acerca da sua maneira de ser. No dia em que pela primeira vez falaram abertamente de amor, ela dissera-lhe: “Não conheces os meus defeitos, se conhecesses…”. Mais tarde contou que se sentira desarmada com a resposta dele: “Eu quero conhecer os teus defeitos”. Infelizmente nunca lhos revelou por palavras. Omitiu-os e apresentou-se como uma pessoa diferente do que na realidade é. Nas divergências e aborrecimentos considerou sempre ser vítima e imputou a ele todas as culpas. Na prática, o que ela fez foi agredi-lo com os seus defeitos. Os defeitos que avisara que tinha e depois nunca assumira.
Enquando se afastava lembrou-se que, muitos meses antes de ela contar que tinha estado apaixonada por um “amigo”, lhe falara dele. Contara-lha imensos pormenores da sua vida e até das suas ideias políticas, mas omitira esse pormenorzinho do amor. Quando lhe veio à memória que um dia ela pedira conselho acerca de um livro para oferecer a esse “amigo” no aniversário, a mágoa e a humilhação trouxeram-lhe lágrimas aos olhos. Atrapalhado e sem jeito, como se já não houvesse lugar para ele na vida, meteu inadvertidamente os pés dentro da poça de água e foi andando pela rua com os sapatos a pingar e os ombros descaídos, vergado pelo desespero.